A doutrina da predestinação esteve no centro das discussões teológicas pós-reformadas, especialmente a partir da divergência entre os calvinistas e os arminianos no início do século XVII. Essa polêmica foi desencadeada pelas críticas do teólogo holandês Jacobus Arminius (1560–1609) à teologia da eleição incondicional defendida por João Calvino. Arminius questionava a lógica de um decreto divino eterno que predestinasse indivíduos à salvação ou à condenação sem levar em consideração a resposta humana à graça. Suas ideias provocaram uma reação institucional que culminou no Sínodo de Dort (1618–1619), momento decisivo na definição da ortodoxia reformada.
Segundo Arminius, a predestinação deve ser entendida à luz da presciência divina: Deus elege aqueles que Ele antevê que crerão em Cristo. Ele afirmou: “A eleição é o decreto de Deus pelo qual Ele decreta justificar e salvar os que creem e perseveram na fé” (Works of James Arminius, 1853, v. 1, p. 247). Essa posição enfatiza a liberdade humana e a universalidade da graça. A teologia arminiana defende que a graça é resistível, que Cristo morreu por todos os homens e que a perseverança na fé depende da cooperação contínua com o Espírito Santo.
A resposta reformada clássica veio nos chamados "Cinco Pontos do Calvinismo", sistematizados nos Cânones de Dort. Os delegados do sínodo reafirmaram a doutrina da eleição incondicional, argumentando que Deus, em Sua soberania, escolheu, por graça, aqueles que seriam salvos, sem levar em conta quaisquer méritos ou decisões humanas. A condenação eterna, por sua vez, era consequência da justa reprovação daqueles que permanecem em seus pecados. Conforme os Cânones: “A eleição é a fonte de toda salvação; a fé em Cristo e todos os dons da salvação fluem dela” (DORT, Cap. I, Art. 9). “Porque os que dantes conheceu também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho” (Romanos 8:29, ARA).
A controvérsia não se limitou à Holanda. Ela teve repercussões profundas na Inglaterra, nas colônias americanas e na Alemanha. Na tradição luterana, a doutrina da predestinação também foi debatida, embora os luteranos mantivessem uma posição distinta dos calvinistas e dos arminianos. Para eles, a eleição era sempre "em Cristo", com base na fé, mas rejeitavam qualquer ideia de dupla predestinação. Martin Chemnitz, expoente da ortodoxia luterana, afirmou: “Deus não predestina ninguém para a condenação, mas deseja que todos sejam salvos” (Loci Theologici, 1591, p. 299).
Teólogos como Francis Turretin (1623–1687), em
sua obra Institutes of Elenctic Theology, defenderam com vigor a eleição
incondicional. Ele argumentava que a doutrina da predestinação não contradiz a
responsabilidade humana, mas estabelece a base da segurança da salvação. “A
eleição é a causa da fé, e não o contrário”, escreveu (TURRETIN, 1679, v. I, p.
356). Sua teologia buscava integrar a soberania divina e a liberdade humana de
forma compatível com a lógica bíblica e a tradição reformada.
Fonte: Páginas 94 a 95 da
apostila "História da Teologia", Extensão Universitária em Teologia
Reformada, curso SETEO.
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